Ressuscitando um antigo 286 (Parte 5 - Conectando na rede local)

Sei que muitos de vocês devem estar se perguntando: mas na Parte 4 você não tinha dito que esta seria a última parte sobre o 286? Sim, eu disse! Mas então é algum tipo de pegadinha? Rááá ié ié? Explico: Não é nada disso! É que o nosso simpático 286 me surpreendeu mais uma vez e achei que seria bacana compartilhar com vocês!

Bem, como vocês viram na primeira parte desta saga, eu tinha comigo uma placa de rede ISA genérica do tipo "NE2000 compatível", que foi muito popular nos anos 80 e início dos 90. Pois bem, decidi colocar mãos à obra para fazer o glorioso 286 conectar à minha rede local, a qual era a última fronteira ainda não explorada!

Placa de rede NE2000 ISA conectada (no meio)

Porém, houve um "pequeno problema": a dita cuja da placa não dava nem sinal de conseguir conexão!

Note que os leds que indicam conectividade estão apagados

Como se trata de uma placa ISA de legado, de antes da introdução do padrão plug and play, observei que muito provavelmente ela necessitaria de ajustes manuais nos jumpers (para os amigos não versados nos termos informáticos, jumpers são como pequenas chaves que permitem fazer ligações entre dois circuitos). O problema era justamente definir quais jumpers deveriam ser ajustados, visto que haviam vários deles e a placa não tinha um manual. Pesquisando no Google, até achei alguns esquemas de placas similares, mas que não eram totalmente idênticas ao modelo que eu tenho em mãos. Realmente estava complicado... mas eu sou brasileiro e não desisto nunca! :-)

Exemplo de jumpers

Entrei em contato por e-mail com quem me doou a placa - um grande amigo e incentivador desta página, Fabiano Ochmat, para ver se ele não lembrava de algum macete da plaquinha. Trocamos vários e-mails, e ele confirmou que todos os ajustes dela eram via jumpers mesmo e que a placa tinha algumas peculiaridades na auto-negociação de taxa de transferência (ela é uma placa Ethernet padrão de 10 Mbps). Como eu estava tentando ligá-la via cabo de par trançado ao meu switch Gigabit Ethernet, achei que aí estaria parte da chave para a resolução do problema - a placa poderia não estar conseguindo negociar corretamente a taxa de transferência.

Providenciei então um antigo hub de 10 Mbps 3Com para testar a conectividade do 286. Uma ótima aquisição para a minha coleção de tecnologias que marcaram época!

Hub 3com Super Stack II PS 40...

... com 12 portas de 10 mbps...


... e conexões diversas, entre elas entrada AUI para um transceptor externo e uma porta uplink

Porém, mesmo com o glorioso hub 3Com a placa de rede do 286 continuava a não indicar conectividade. Foi um banho de água fria! Mas não desanimo facilmente e decidi me aprofundar no enigma dos jumpers: decifra-me ou devoro-te! Parti para uma solução radical: setar todos eles para a posição ON e caso continuasse a não funcionar iria desligando um a um. Mas não foi preciso: a placa deu sinal de vida, conectando-se ao hub 3Com! Eureka!

Finalmente a placa conseguiu conectividade! Note o led verde aceso

Refinando a solução, cheguei à conclusão que alguns blocos específicos de jumpers deveriam ser ajustados.

Jumpers que tiveram que ser alterados (setas vermelhas)

Faltavam agora apenas duas coisas: a primeira delas era integrar o 3Com ao resto da minha rede local (o que alterou a sua infraestrutura - terei que atualizar esta postagem... rs), o que fiz facilmente o interligado ao meu conjunto de switches através da sua porta uplink utilizando um cabo de par trançado CAT5 comum.

Hub 3com integrado à minha rede local: note a discrepância dos tamanhos! :-)

A segunda era instalar no MS-DOS (o sistema operacional do 286) o cliente para redes Microsoft for DOS (MSCLIENT) que inclui drivers para várias placas de rede antigas bem como o protocolo TCP/IP. Para tanto, é necessário rodar o utilitário SETUP da sua mídia de instalação. O processo inicia com uma tela de boas vindas e em seguida sugere uma pasta para a instalação dos arquivos, sendo recomendável manter o padrão C:\NET.



A próxima tela é sobre a configuração dos buffers da rede (buffer é um espaço na RAM para o armazenamento temporário de dados durante uma transferência). Como o 286 conta com apenas 512 KB de RAM, decidi que era melhor não utilizar buffers na rede.


Em seguida é hora de configurar um nome de usuário para a rede e o grupo de trabalho ou domínio, através da opção "Change Names".






Agora é necessário acessar a opção "Change Network Configuration" para escolher o driver da placa de rede, no caso NE2000 Compatible...


... configurar corretamente o endereço de I/O e o da interrupção, que devem ser os mesmos valores ajustados fisicamente nos jumpers...


... bem como também adicionar o protocolo TCP/IP, que é o protocolo mais utilizado em redes modernas.


Tudo OK, agora é só selecionar a opção "Network configuration is correct" para voltar à tela principal do instalador. Nesta tela, por sua vez, deve ser selecionado a opção "The listed options are correct" para prosseguir com a cópia dos arquivos.


Após o término da cópia é necessário reiniciar o sistema. Será que o 286 vai se conectar à minha rede?


Sim! O glorioso 286 não só se conectou à rede, como pegou um endereço IP do meu servidor ("Initializing TCP/IP via DHCP..."), como também foi possível eu me logar com o meu nome de usuário e senha! Muito bom!

Para ter acesso à pastas compartilhadas na rede pelo MS-DOS é necessário mapear uma letra de unidade com o comando NET USE.


Só há um pequeno problema: a partir do Windows Server 2003 (o meu servidor roda o 2012 R2) a Microsoft reforçou o algoritmo de autenticação de usuários e senhas para o acesso a pastas compartilhadas, o que os deixa incompatíveis com os sistemas operacionais anteriores (vide o resultado do primeiro comando: "Error 5: Access has been denied"). Até é possível voltar ao esquema anterior de autenticação, mas não fazia muito sentido reduzir o nível de segurança da minha rede para apenas um teste.

A solução foi utilizar uma máquina com uma versão anterior do Windows para testar (no caso, o Windows 98 SE), que funcionou perfeitamente (vide o segundo comando)!

Arquivos de um computador com Windows 98 SE mapeados no 286 com MS-DOS

É isto aí! Espero que tenham curtido a saga do nosso querido 286! Para finalizar deixo um agradecimento especial ao amigo Fabiano Ochmat pela ajuda e também pela doação de muitos componentes antigos. Sua contribuição é inestimável!

Um grande abraço é até a próxima!

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Veja também:

Comentários

  1. Pô legal, até tenho um 386SX, 386DX, 486DLC, que na época configurei o Doom como multiplayer, usava o IPX/SPX, mas minha rede usava cabo coaxial, minha ultima empreitada com hardware antigo foi instalação do OS/2 Warp num 486DX, com 16MB de RAM, com dualboot com o Win95.

    Se eu revirar, é capaz de eu achar uma placa de rede bem antiga mesmo, era novel, e usa o tradicional National DP8390, ela não tem nenhum componente SMD, são todos convencionais, eu já fiz ela funcionar.

    Quando tiver um tempinho, vou ligar as coiseiras aqui.


    By Stealth

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    1. Show de bola! Eu também já joguei muito Doom na LAN, que saudade! Tenho aqui um 386 SX e alguns 486 que serão tema de futuros posts. Para mim colocar hardware antigo novamente em funcionamento é uma verdadeira terapia. Um grande abraço e obrigado pelo seu comentário!

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  2. Sempre sonhei em ter um 286 e pc xt há muito tempo para essas aventuras, porém só encontrei 286's estragados ou corroídos pelas baterias. Fiquei muito satisfeito quando descobri este site (principalmente esta aventura). Podemos dividir conhecimentos e trocar hardware se for de seu interesse. Voltando para o 286, naqueles soquetes SIP poderia-se colocar aquelas memórias SIMM de 30 vias com pontas de aços soldadas nos contatos e advinhar a posição das mesmas. Vale a pena experimentar pois o 286 com 512KB está uma beleza porque ele deve estar usando a função da memória virtual que existe e é bem primitiva nesse processadores (embora a memória virtual só foi anunciada nos 386's).

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    1. Obrigado pelo comentário! Seria um prazer dividir conhecimentos!

      Quanto à memória virtual nos 80286, ela até existe mas só funciona no modo protegido. Como este modo nos 286 possui um erro de projeto (quando ele entra no modo protegido só volta para o modo real com um hard reset, impossibilitando o sistema de fazer chamadas à BIOS ou ao DOS - problema que só foi corrigido nos 386) poucos softwares fizeram uso do modo protegido dos 286. Nenhuma versão do Windows utiliza, logo nos 286 o Windows roda apenas no modo real, neste caso não fazendo uso do recurso de memória virtual.

      Um grande abraço!

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  3. Agora você tem que integrar esse PC na rede usando cabo coaxial ou a interface AUI. É mais desafiador.

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