Ressuscitando um antigo 286 (Parte 1 – Apresentação e componentes)

Não adianta, sou um entusiasta do hardware do padrão PC (com muito orgulho e com muito amor). Além de não ter coragem de vender as peças que sobram quando faço um upgrade nas minhas máquinas, ainda aceito de bom grado quando amigos e parentes me doam componentes antigos. Adoro colecionar processadores, placas diversas, módulos e toda a sorte de componentes "velhos" (ou melhor, antigos - mais respeito!). Acho que eles possuem o seu charme com um toque nostálgico bastante peculiar, e ao mesmo tempo são um bom parâmetro para vermos o quanto a tecnologia evoluiu. Em todas as áreas do conhecimento humano, a história nos faz compreender melhor o presente e ter uma melhor ideia do que esperar do futuro. E em tecnologia isto não é diferente.

Nestes últimos dias decidi trazer novamente à vida um 80286 que me havia sido doado por um amigo do meu trabalho (valeu Fabiano!). Mais precisamente, um 286 de 20 MHz fabricado pela empresa Harris. As especificações básicas deste 286 são as seguintes:

  • Frequência do processador: 20 MHz;
  • Frequência do barramento com a placa mãe: 20 MHz;
  • Registradores de 16 bits;
  • Barramento de memória de 16 bits;
  • Endereçamento de memória de 24 bits;
  • Máxima quantidade de RAM suportada: 16 MB;
  • Número de transistores: 134.000;
  • Tensão de alimentação: 5 V;
  • Ano de lançamento: 1982.

Convém aqui uma pequena explicação sobre o contexto histórico: até o 80486, apenas a própria Intel fazia o projeto dos processadores. Os demais fabricantes licenciavam os projetos base da Intel para a sua própria produção, como a AMD, Cyrix, Harris, Texas Instruments, apenas para citar alguns. A partir do Pentium a Intel deixou de licenciar os seus projetos para os demais fabricantes, os obrigando a desenvolver projetos próprios. Dos vários fabricantes "alternativos", somente a AMD sobrevive até os dias de hoje no mercado de processadores para PCs.

Um fato curioso é que a Intel não lançou um 286 de mais de 12,5 MHz, enquanto que a Harris e a AMD lançaram versões de até 25 MHz. Ou seja, eu tinha em mãos um 286 "turbinado"!


Processador 286 fabricado pela Harris: de espantosos 20 MHz!


O meu exemplar de 286 incluía uma placa mãe compatível, contendo 1 MB de RAM (!), 5 slots ISA de 16 bits e um slot ISA de 8 bits.


Placa mãe contendo o processador 286 - na borda inferior da placa, note os contatos vazios para ampliação de RAM no formato SIPP


Oito chips de memória de 128 KB no formato DIP, totalizando 1 MB de RAM!

Porém, fazer essa belezinha funcionar novamente não é algo simples. Ao contrário das placas mãe modernas, esta placa conta com poucos componentes presentes nela própria, sendo necessário adicioná-los através de placas de expansão, e neste caso ainda com um agravante: elas devem ser no antigo padrão ISA, visto que a placa mãe somente possui slots deste padrão. Placas de expansão ISA são cada vez mais raras de serem encontradas - foi necessário muito "garimpo" para encontrar os componentes necessários.

Para o 286 poder ser ligado e utilizado, são necessários no mínimo:

  • Fonte de alimentação no padrão AT;

Fonte AT de 250W



  • Placa de vídeo no padrão ISA;

Placa de vídeo WDC ISA: sim, a WD também já fabricou outras coisas além de HDs...

  • Teclado com conector tipo DIN.

Conector de teclado do tipo DIN


Opcionalmente, também são desejáveis os seguintes componentes:

  • Placa controladora Super I/O no padrão ISA, que adiciona interface para drives de disquete e discos rígidos, além de portas de comunicação serial e paralela;

Placa Super I/O com chip da Goldstar (atual LG). Possui interface para o disco rígido (1), interface para o drive de disquete (2) e interface serial (3)

  • Drive de disquete (este 286 já suporta drives para disquetes de  3 1/2" com 1,44 MB);
  • Disco rígido no padrão IDE/ATA;

Disco rígido WD IDE/ATA de 420 MB

  • Flat cables para a conexão do HD e do drive de disquete;

Exemplo de flat cable para a conexão de um disco rígido

  • Alto falante interno (buzzer) para ajudar no diagnóstico - ele permite ouvir os bipes que a placa mãe emite quando ligada.

Extrapolando, com uma placa de rede ISA o antigo 286 poderá se conectar a uma rede interna!


Placa de rede ISA, com conectores para cabos de par trançado (1) e coaxial (2). Com ela, o meu antigo 286 pode se conectar à minha rede interna!

EDIT 06/10/2016: eis a peça publicitária do IBM PC-AT, que é baseado no processador 286.





E assim chegamos ao final da primeira parte sobre o nosso simpático 286. Na próxima parte, farei a montagem e configuração dos componentes. Será que ele irá funcionar? Tchan tchan tchan...

Próximo:

Ressuscitando um antigo 286 (Parte 2 - Montagem)

Veja também:

80386: a primeira CPU x86 de 32 bits (Parte 1 – Apresentação e montagem)
Vivendo na época da Reserva de Mercado de Informática
Restaurando uma relíquia da Reserva de Mercado (Parte 1 - Visão geral)

Comentários

  1. Estou com um dual core da amd em casa, podemos conversar para uma doação para frente de placa mãe, processador e memória, MÍTICOOOO

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  2. cara... muito legal... eu quero fazer um projeto destes...
    Tenho um bem parecido..só que é um 386Dx

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    1. Obrigado! Para mim restaurar hardware antigo é uma verdadeira terapia.

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