Minha experiência pessoal com o Linux (Parte 1 – Velhos Tempos)

Sou bastante eclético do que diz respeito a sistemas operacionais, pois na minha opinião todos eles têm os seus pontos negativos e positivos. Como é possível perceber o Blog tem uma boa quantidade de postagens sobre o Windows e Windows Server (além de outras tecnologias da Microsoft), desta forma resolvi também abordar a minha experiência pessoal com o Linux, sistema operacional que ajudou a forjar a tecnologia que temos atualmente. Pegando um gancho no lançamento do novo Ubuntu 14.10, convido-os a compartilhar da minha experiência e percepções sobre o sistema operacional do pinguim, começando pelos seus primórdios e algumas das suas distribuições pioneiras.



O início com o Conectiva Marumbi 2.0

A caixa do Conectiva Marumbi
Meados de 1998. Estava no terceiro ano da graduação em Ciência da Computação quando em uma tarde de sábado um amigo apareceu com um CD do Conectiva Red Hat Linux 2.0 Marumbi. Surgido em 1991 como um trabalho solitário do programador finlandês Linus Torvalds, o Linux já causava furor nos ambientes acadêmicos dos cursos de TI devido à sua filosofia de acordo com os termos do Software Livre e a disponibilidade do código-fonte. A Conectiva era uma empresa brasileira sediada em Curitiba que customizava a distribuição Red Hat (a mais popular da época), incluindo traduções em vários aplicativos bem como também nas documentações do sistema em português.

Decidi instalar o Marumbi (que é o nome de um conjunto de montanhas da Serra do Mar no Paraná) no meu PC, que na época era um Pentium-MMX de 200 MHz, com 64 MB de RAM, placa mãe Asus VX97 (baseada no chipset Intel 430VX) e disco rígido Quantum Fireball de 4,3 GB. Como já tinha um dual boot do Windows NT 4.0 com o Windows 98, a principal dificuldade na instalação foi liberar espaço no disco para um terceiro sistema operacional, bem como também tornar possível a inicialização do Linux - para tanto instalei o gerenciador de boot do Linux na MBR (que na época era o LILO, de Linux Loader) configurando o seguinte esquema:



Enquanto que o Kernel atual do Linux é capaz de detectar e ativar automaticamente a grande maioria dos dispositivos, o Kernel 2.0 presente no Marumbi tinha um suporte bastante limitado ao hardware da época. Para fazer o meu saudoso modem US Robotics de 33,6 Kbps discar e conectar à Internet foi um desafio: tive que pesquisar muito até descobrir que o Kernel deveria ser recompilado com uma flag específica ativada para incluir suporte para o modem. Quando finalmente me conectei à Internet a partir do Linux (com o Netscape Navigator) foi um nergasm total! :-)

O glorioso modem US Robotics de 33,6 Kbps


Como gerenciador de janelas o Marumbi utilizava uma versão beta do KDE 1.0 e o Gnome 0.2, que eram iniciados a partir do clássico comando startx. 

O gerenciador de janelas KDE 1


Fiquei com os três sistemas operacionais durante um tempo, até que o meu disco ficou lotado e começou a pedir água, sem falar da verdadeira bagunça de diferentes sistemas de arquivos: Windows 98 em FAT, NT 4.0 em NTFS e o Linux em ext2, ainda com uma partição de dados em FAT que era o único sistema de arquivos que podia ser lido pelos três sistemas operacionais. Como espaço de armazenamento na época era algo caro e eu era um estudante universitário durango tive que sacrificar o Linux (com muita dor no coração) para aumentar o espaço livre no disco, visto que os meus trabalhos universitários eram feitos no Word (ainda não existia uma suíte Office alternativa viável na época) e programava principalmente em Clipper, que roda no MS-DOS.

A volta ao Linux com o Mandrake

Em 2000 eu já contava com um AMD K6-III de 400 MHz, 128 MB de RAM e um disco rígido Quantum de 20 GB, capaz de acomodar três sistemas operacionais com mais conforto. Vi em uma banca de revistas um exemplar com um CD do Mandrake 7.0, o qual me chamou a atenção e resolvi experimentar novamente o sistema do simpático pinguim.

O Mandrake 7.X utilizava o Kernel Linux 2.2 e o KDE 1, e muitas das suas ferramentas avançadas de configuração já estavam presentes, como o famoso DrakConf. Nesta época o Kernel Linux já estava bastante mais evoluído, sendo que não tive maiores problemas para colocar em funcionamento nenhum componente de hardware do meu equipamento.



Mandrake 7 rodando o KDE 1, notem que o Gimp já estava presente :-)

O DrakConf, famoso gerenciador de configurações de sistema, já estava presente e facilitava bastante a vida dos iniciantes no Linux

Permaneci com o Mandrake nas versões 8 (lançada em 2001 e com o KDE 2) e 9 (lançada em 2002 com o KDE 3), ambas com Kernel Linux da série 2.4. Durante este tempo o Mandrake dividiu espaço no meu disco rígido com o Windows 98 SE e com o Windows 2000 Professional.

Mandrake 8 com o KDE 2

Mandrake 9 com o KDE 3

Como curiosidade, em 2005 a Mandrake (que é uma empresa francesa) adquiriu a Conectiva por mais de 2 milhões de verdinhas em valores da época. As duas empresas e as suas respectivas distribuições foram fundidas na Mandriva Linux, o que causou bastante furor na época entre dos linuxistas brasileiros com a perda da brasileiríssima Conectiva.

A Mandriva lançou versões regulares (a cada seis meses) da sua distribuição até 2011, quando com graves problemas financeiros e em recuperação judicial descontinuou a versão livre do Mandriva Linux e decidiu lançar apenas pacotes de soluções pagas voltadas ao mercado empresarial, com edições da sua distribuição para servidores e estações de trabalho, de forma similar ao caminho trilhado pela Red Hat muitos anos antes. O espólio do Mandriva Linux Free acabou tornando-se a atual distribuição Mageia, sendo um ótimo exemplo da filosofia do Software Livre - com certeza muitos dos que usam a distribuição Mageia atualmente nem imaginam que a saudosa Conectiva é o seu tataravô... :-)

Na próxima parte deste especial falarei sobre os “Tempos Modernos” das distribuições Linux, o advento do Kernel 2.6, uma saudosa distribuição nacional e também sobre duas das principais distribuições do sistema na atualidade. Até lá!

EDIT 28/05/2015: A Mandriva está sendo oficialmente liquidada.


Próximo:

Minha experiência pessoal com o Linux (Parte 2 – Tempos Modernos)

Veja também:

Ubuntu completa dez primaveras

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