Dica MS-DOS: Como configurar o CONFIG.SYS e o AUTOEXEC.BAT

O CONFIG.SYS e o AUTOEXEC.BAT são os principais arquivos de configuração do MS-DOS. Demonstro aqui em detalhes como ajustá-los corretamente, além de também explicar como fazer funcionar um teclado ABNT2 no DOS. E como um bônus super especial, destrincho em detalhes o complicado gerenciamento de memória do lendário sistema da Microsoft. Vale a pena conferir!



Ambos os arquivos são gerados automaticamente após a instalação do MS-DOS. No caso da versão 6.22 do sistema operacional, eles por padrão ficam desta forma:


CONFIG.SYS e AUTOEXEC.BAT logo após a instalação do MS-DOS 6.22

Arrumá-los parece fácil, não? Pode até ser. O problema é que após a instalação de drivers diversos (como o da unidade de CD-ROM e da placa de som) e do Windows 3.X, a complexidade e o desarranjo deles vão sempre aumentando:


CONFIG.SYS e AUTOEXEC.BAT bagunçados após a instalação do Windows 3.11 e de drivers diversos

Arrumando o CONFIG.SYS e o gerenciamento de memória do MS-DOS

O CONFIG.SYS é utilizado pelo MS-DOS para a carga de drivers de dispositivos e para configurar parâmetros diversos do sistema. O ideal para uma melhor compreensão do arquivo é agrupar a carga dos drivers e o ajuste dos parâmetros em blocos distintos. As linhas que começam com DEVICE são as que carregam os drivers.

Há duas formas de carregar drivers no MS-DOS: a opção DEVICE faz a carga na área de memória convencional, enquanto que a DEVICEHIGH carrega o driver na área de memória alta. Sempre é recomendável fazer a carga na memória alta, visto que quanto mais memória convencional disponível melhor. Além de o próprio MS-DOS funcionar melhor, há softwares antigos que utilizam apenas a memória convencional.

Para facilitar a compreensão, vou explicar rapidamente como é o gerenciamento de memória do MS-DOS. O diagrama abaixo ilustra o processo:

O gerenciamento de memória do MS-DOS. Coisa de louco!

Que salada, não é? O gerenciamento de memória do MS-DOS se confunde com a própria evolução do padrão IBM PC. Vamos lá:

Memória convencional: os primeiros 640 KB, ficam disponíveis para os softwares e para o próprio sistema operacional.

Memória superior (Upper Memory Blocks - UMB): no design original do IBM PC a faixa entre os primeiros 640 KB e 1 MB de RAM ficou reservada para armazenar a memória de vídeo (VRAM), imagens das memórias ROM dos dispositivos e os seus endereços de I/O. Nem sempre este segmento fica totalmente preenchido, sendo possível aproveitá-lo. Veremos no momento oportuno como fazer isto.

Memória alta (High Memory Area – HMA): com o advento dos processadores 80286 e uma vez que os mesmos endereçam até 16 MB de RAM, foi criada esta nova segmentação de memória. O MS-DOS é capaz de acessar este intervalo com a ajuda de gerenciadores como o HIMEM.SYS.

Memória estendida: é tudo o que se encontra após os 16 MB iniciais até o máximo de 4 GB, que é o limite teórico de endereçamento de memória dos processadores x86 a partir dos 80386. Como o MS-DOS funciona no modo real não pode acessar esta memória diretamente, somente com a ajuda de softwares que chaveiam o processador para o modo protegido. O mais famoso deles é o DOS/4GW, utilizado por muitos jogos.

Existe ainda a chamada memória expandida (não confundir com a estendida!), utilizada por softwares gerenciadores tais como o EMM386.EXE que teoricamente permite acessar toda a RAM mesmo com o processador operando no modo real. Estes softwares aplicam técnicas de chaveamento de endereços de memória: alguns segmentos da memória convencional são mapeados para apontar para um ou mais conjuntos de endereços da memória estendida (aquela acima dos primeiros 16 MB), e o software gerenciador faz o chaveamento de modo transparente ao sistema operacional.

Mas voltando ao nosso CONFIG.SYS, vejam como o mesmo ficou depois de organizado:


Comentarei linha a linha:

DEVICE=C:\WINDOWS\HIMEM.SYS 
Carrega o gerenciador HIMEM para o DOS poder acessar a área de memória alta. Não pode ser utilizado em conjunto com o DEVICEHIGH.

DEVICEHIGH=C:\DOS\SETVER.EXE
O SETVER.EXE pode ser considerado como o bisavô do modo de compatibilidade dos Windows modernos. Ele permite “enganar” aplicações específicas para reconhecerem o MS-DOS como se fosse de versões anteriores, muito útil para softwares que exigem serem executados em uma versão específica do DOS.

DEVICEHIGH=C:\DOS\DISPLAY.SYS CON=(EGA,,1)
Carrega o driver de vídeo padrão do MS-DOS.

DEVICEHIGH=C:\WINDOWS\IFSHLP.SYS
Incluído pelo Windows 3.11, permite acessar o disco rígido no modo de 32 bits mesmo no DOS.

DEVICEHIGH=C:\SBCD\DRV\SBIDE.SYS /D:MSCD001 /P:170,15 /V
Driver da unidade de CD-ROM IDE. 

DOS=HIGH,UMB
Configura o MS-DOS para ser carregado na área de memória alta (HMA) e na área de memória superior (UMB), liberando mais memória convencional.

COUNTRY=055,,C:\DOS\COUNTRY.SYS
É como se fosse o mapa de caracteres do MS-DOS.

FILES=30
Especifica o número máximo de arquivos que podem ser abertos simultaneamente pelo sistema.

LASTDRIVE=Z
Define até quais letras poderão ser utilizadas para montar unidades de armazenamento.

STACKS=9,256
O parâmetro STACKS define as filas de pedidos de IRQ vindos dos dispositivos recebidos pelo MS-DOS. Aqui definimos o número dos pedidos (9) e o tamanho de cada um em bytes (de 32 a até 512 bytes). Salvo por uma necessidade muito especial (como algum componente de hardware exótico) estes valores sugeridos funcionam sem problemas. Para maiores informações sobre o conceito de IRQs, recomendo a leitura da postagem que fiz sobre o barramento ISA.

Deixo aqui uma “colinha” do CONFIG.SYS caso você queira aproveitá-lo em um PC antigo ou mesmo em uma máquina virtual:

DEVICE=C:\WINDOWS\HIMEM.SYS
DEVICEHIGH=C:\DOS\SETVER.EXE
DEVICEHIGH=C:\DOS\DISPLAY.SYS CON=(EGA,,1)
DEVICEHIGH=C:\WINDOWS\IFSHLP.SYS
DEVICEHIGH=C:\SBCD\DRV\SBIDE.SYS /D:MSCD001 /P:170,15 /V
DOS=HIGH,UMB
COUNTRY=055,,C:\DOS\COUNTRY.SYS
FILES=30
LASTDRIVE=Z
STACKS=9,256

Arrumando e incrementando o AUTOEXEC.BAT

O AUTOEXEC.BAT é um arquivo de lote que permite automatizar a entrada de comandos e a carga de aplicativos para a configuração do sistema. As premissas são as mesmas do CONFIG.SYS: organização do arquivo e a carga dos softwares na área de memória alta, o que pode ser feito pelo prefixo LOADHIGH ou simplesmente LH.

Eis aqui o mesmo já devidamente arrumado:


Vamos lá, com os comentários linha a linha:

@ECHO OFF
Imprime na tela apenas o resultado dos comandos, para um melhor conforto visual.

PROMPT $p$g
Configura a apresentação do prompt do DOS. Neste caso o mesmo ficaria no padrão C:\>.

PATH C:\WINDOWS;C:\DOS
Informa ao sistema o caminho dos arquivos tanto do Windows quanto do DOS.

SET TEMP=C:\TEMP
Configura o caminho dos arquivos temporários. Note que o diretório TEMP é apenas uma sugestão, devendo ser criado manualmente com o comando MD (Ex. MD C:\TEMP).

MODE CON CODEPAGE PREPARE=((850) C:\DOS\EGA.CPI)
MODE CON CODEPAGE SELECT=850
Ajusta as configurações de exibição dos caracteres, neste caso para o idioma PT-BR.

KEYB BR,,C:\DOS\KEYBOARD.SYS
Carrega o driver do teclado, neste caso no padrão Estados Unidos internacional. Se você tiver um teclado ABNT2 substitua esta linha por:

C:\DOS\KEYB BR,,C:\DOS\KEYBRD2.SYS /ID:275

LH C:\SBCD\DRV\MSCDEX.EXE /D:MSCD001 /V /M:8
Carrega o MSCDEX.EXE, utilitário que monta a unidade de CD-ROM atribuindo a letra D: à mesma. Se você quiser montar o CD-ROM em outra letra de unidade basta alterar o parâmetro.

SET SOUND=C:\SB16
SET BLASTER=A220 I5 D1 H5 P330 T6
SET MIDI=SYNTH:1 MAP:E
LH C:\SB16\DIAGNOSE /S
LH C:\SB16\MIXERSET /P /Q
Configura o endereçamento da placa de som (no caso uma Sound Blaster 16) e carrega o seu programa de diagnóstico (DIAGNOSE.EXE) e o mixer (MIXERSET.EXE). Veja mais detalhes sobre esta configuração aqui.

LH C:\WINDOWS\net start
Carrega o suporte a redes locais do Windows for Workgroups 3.11.

LH C:\DOS\SMARTDRV.EXE /X
O SMARTDRV.EXE é um software de cache de disco, o qual agiliza bastante as cópias de arquivos e outras operações com o disco rígido e com a unidade de CD-ROM.

LH C:\DOS\MOUSE.EXE
Carrega o driver de modo real para o mouse.

LH C:\DOS\DOSKEY.COM
O DOSKEY.COM é um utilitário muito prático que armazena os últimos comandos rodados no sistema. Agiliza bastante tarefas repetitivas.

Segue a cola do AUTOEXEC.BAT:

@ECHO OFF
PROMPT $p$g
PATH C:\WINDOWS;C:\DOS
SET TEMP=C:\TEMP
MODE CON CODEPAGE PREPARE=((850) C:\DOS\EGA.CPI)
MODE CON CODEPAGE SELECT=850
KEYB BR,,C:\DOS\KEYBOARD.SYS
LH C:\SBCD\DRV\MSCDEX.EXE /D:MSCD001 /V /M:8
SET SOUND=C:\SB16
SET BLASTER=A220 I5 D1 H5 P330 T6
SET MIDI=SYNTH:1 MAP:E
LH C:\SB16\DIAGNOSE /S
LH C:\SB16\MIXERSET /P /Q
LH C:\WINDOWS\net start
LH C:\DOS\SMARTDRV.EXE /X
LH C:\DOS\MOUSE.EXE
LH C:\DOS\DOSKEY.COM

Ufa! Espero que tenham gostado! Em uma futura postagem mostrarei opções avançadas do MS-DOS 6.22 tais como a criação de um menu de inicialização. Até lá!

Veja também:

Comentários

  1. A área de memória alta (Inglês área de memória alta, HMA) é a área da memória de acesso aleatório (RAM), composto pelos primeiros 64 kibibytes (KiB), menos 16 bytes de memória estendida em um IBM PC ou microcomputador compatível .

    No gráfico wikipedia diz 16MB - 4GB, porque só 286 pode endereçar até 16 MB de RAM e 4 GB 386 e superior.

    Quanto à RAM estendida começa a partir de 1 MB à quantidade de RAM instalada. O expandiu era uma maneira de acessar essa memória acima de 1 MB de RAM dividindo-a em partes de 64 kb que foi copiado para um bloco de UMB para usá-lo.

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    1. Agradeço pela contribuição. As definições e o diagrama que reproduzi aqui foram baseados na literatura da época, que difere talvez apenas pela metodologia e didática. Interessante saber que o Wikipedia segue um padrão similar.

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  2. Lembro que o Alone in the Dark 3 utilizava muita memória convencional e, na época, tive que chamar um técnico para liberar mais pro jogo entrar. Na época diziam que não adiantava ter 4 ou 8mb de ram se o que vale são apenas os 640kb de memória convencional.

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    1. Verdade. O World Circuit (mais conhecido como GP1) também era um devorador de memória convencional, me lembro que suei na época para conseguir liberar memória convencional suficiente para ele rodar.

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  3. Graças a Deus o NT acabou com isso tudo.

    Sobre o assunto, Rob Short, parte do seleto time de Dave Cutler que deixou a DEC indo para a MS no final dos anos 80, diz que achava os PCs da época muito pouco sofisticados e que entre seus interesses estava como melhorar o hardware, não apenas o software. Esta entrevista vale a pena:

    https://channel9.msdn.com/Shows/Behind+The+Code/Rob-Short-Operating-System-Evolution

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    1. Verdade, mesmo no Windows 9X a importância dos arquivos CONFIG.SYS e AUTOEXEC.BAT já havia caído bastante. Digo que o MS-DOS é o exemplo perfeito da colcha de retalhos que é o padrão PC... :-)

      No mais, obrigado pelo ótimo link!

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