Microsoft disponibiliza código-fonte das primeiras versões do MS-DOS e do Word

Ultimamente só anda dando Microsoft por aqui! Mas esta notícia é quase como se fosse a descoberta do santo graal para os retrowarers (gostaram deste neologismo?): em parceria com o Computer History Museum, a Microsoft disponibilizou o código-fonte do MS-DOS 1.1 e 2.0, bem como do Word 1.1a, como uma forma de "ajudar as futuras gerações a entender as raízes da tecnologia".



O código-fonte do MS-DOS pode ser baixado aqui, e o do Word aqui. Para o download é necessário concordar com um termo de confidencialidade (normal da Microsoft). A maior parte dos fontes do DOS estão em Assembler e os do Word estão em C.

Uma palavrinha sobre o MS-DOS...


Para quem não sabe, o DOS (sigla para Disk Operating System) originalmente não foi uma criação de Bill Gates ou de Paul Allen. Ele foi desenvolvido no início dos anos 80 por uma pequena fabricante de computadores, a Seattle Computer, e o seu verdadeiro pai é Tim Paterson (que depois viria a trabalhar na Microsoft).

Tim Paterson, o pai do DOS

O primeiro nome do sistema operacional era QDOS ("Quick and Dirty Operating System", ou algo como "Sistema Operacional Rápido e Sujo"). Foi desenvolvido para o processador Intel 8086 de 16 bits (em função disto foi rebatizado como 86-DOS) e inspirado no CP/M (da Digital Research, a Microsoft da época), que era o sistema operacional mais popular no início dos anos 80. Uma vez que o IBM-PC iria utilizar o processador Intel 8088, que é uma variação do 8086 com barramento externo de 8 bits, o 86-DOS seria plenamente compatível com as novas máquinas da IBM.

Sabendo disto e com um prazo bastante apertado para desenvolver um sistema operacional do zero, Paul Allen entrou em contato com a Seattle Computer para adquirir os direitos plenos de uso do 86-DOS, que no início relutou (ela queria um licenciamento parcial) mas depois acabou cedendo por 75 mil verdinhas (a Microsoft deu um sinal inicial de 25 mil e depois concretizou o negócio com mais 50 mil).

Com o código-fonte disponível, programadores da Microsoft e da própria IBM correram para depurá-lo a tempo do lançamento do PC, resultando no que viria a ser o PC-DOS 1.0 (foi somente a partir da versão 2.0 que o sistema foi renomeado para MS-DOS). Mais tarde, vendo a burrada que tinha feito, a Seattle Computer processou a Microsoft - a ação terminou com um acordo de 1 milhão de dólares favorável para a primeira, o que ainda é uma pechincha perto do que a Microsoft lucrou com o sistema.

Aqui no blog postei as minhas experiências com o MS-DOS e um antigo 286, que podem ser vistas aqui e aqui.


...e outra sobre o Word

Na segunda metade dos anos 80 a Microsoft já havia lançado algumas versões do Word para o MS-DOS mas ele nunca despertou muita popularidade - na época, os editores de texto mais usados eram o WordPerfect e o WordStar. O Word como o conhecemos hoje teve o seu embrião no famoso centro de pesquisas da Xerox em Palo Alto (o PARC), onde no final dos anos 1970 uma equipe que contava com o programador Charles Simonyi (entre vários outros) criou o Bravo, o primeiro editor de textos do mundo baseado no conceito WYSIWYG (“What You See Is What You Get”, ou "O que Você Vê É O que Você Obtém"): este conceito permite que a impressão do texto saia idêntica ao que é apresentado na tela, o que os editores da época não ofereciam.



Charles Simonyi, um dos criadores dos editores de texto como os conhecemos hoje

Simonyi, assim como muitos outros brilhantes cientistas do PARC, andava desanimado na época com a falta de visão da Xerox para transformar grandes idéias em produtos (o Bravo jamais foi lançado comercialmente) - foi então que Bill Gates viu uma demonstração do Bravo e ficou impressionado, acabando por recrutar Simonyi para a Microsoft em 1981, além de conceder a ele total liberdade criativa. 

Na Microsoft Simonyi pode colocar em prática todas as suas ideias e conceitos aprendidos com o Bravo, criando um produto novo escrito do zero (o código-fonte do Bravo até hoje é de propriedade da Xerox) que acabaria tornando-se o Word for Windows, cuja primeira versão saiu em 1989 (por módicos 495 obamas - valor da época), enquanto que a versão 1.1a saiu no ano seguinte - foi o início de uma vertiginosa ascensão até obter mais de 90% do mercado de editores de texto. Impressionante.



Gráfico de market share dos processadores de texto nos anos 80 e 90 - note a impressionante ascensão do Word for Windows


Word for Windows 1.1a
Veja também:

Comentários

  1. Excelente tudo em Assembly ainda, chega a ser estranho não ver programação em C, mas é compreensível a utilização de Assembly nesse caso, pouca memória e necessidade de otimização máxima.

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    1. Exato. RAM e processamento naquela época eram artigos de luxo, o sistema tinha que ser o menor e mais otimizado possível.

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