Charlatães sobrenaturais

Acho que todos ao menos já ouviram falar do livro Horror em Amityville, e dos muitos filmes baseados em maior ou menor grau na história original. Pois bem, é tudo cascata.


Eu devia ter uns 12 ou 13 anos quando li o livro Horror em Amityville, devorando-o em poucos dias. A história versa sobre uma família (os Lutz) que foi morar na famosa casa de número 112 da Ocean Avenue no vilarejo de Amityville, que no ano anterior havia sido o palco da chacina da família DeFeo praticada pelo filho mais velho. Menos de 30 dias após a mudança os Lutz abandonaram a casa alegando que havia uma presença demoníaca na mesma. 

Este é exatamente o livro que eu li

Lembro-me de ter ficado bastante impressionado com algumas partes da história, como as vozes que expulsaram um padre que teria ido benzer a casa (que no livro recebeu o nome de padre Mancuso), os fenômenos que aconteciam no quarto de costura, o crucifixo invertido no porão e o quarto secreto que tinha todas as paredes pintadas em vermelho.

No prefácio havia um aviso que me deixou ainda mais intrigado:


Comentei sobre o livro com o meu pai, que disse que era “tudo besteira”. Falei sobre o prefácio, que era tudo verdade, e ele respondeu:

“Não acredite em tudo o que você lê”.

Pois bem. Esses dias atrás resolvi pesquisar sobre Amityville por curiosidade e achei dois sites muito reveladores. Um deles é o do escritor Ric Osuna, autor do livro “The Night The DeFeos Died”, e o outro é o blog O Aprendiz Verde, que fez um trabalho espetacular em reconstituir todos os passos do assassino Ronald DeFeo Jr., inclusive o seu julgamento.

A verdadeira história de horror em Amityville foi a morte da família DeFeo. Na madrugada do dia 13 de novembro de 1974, o filho mais velho Ronald DeFeo Jr. assassinou a sangue frio com um rifle de alta potência o pai (Ronald DeFeo), a mãe (Louise DeFeo), as duas irmãs (Dawn e Alisson DeFeo) e os dois irmãos (Mark e John DeFeo). Ronald Jr. sempre foi um jovem problemático, viciado em heroína e os conflitos com o pai eram cada vez mais constantes. Ele está preso até hoje, realmente nos EUA o buraco é muito mais embaixo.


Ronald DeFeo Jr. ao ser preso em novembro de 1974

Ric Osuna chega a insinuar que Ronald Jr. teve a ajuda de dois amigos e da irmã Dawn nos assassinatos, mas isto nunca foi provado, mesmo porque Ronald mudou a sua versão dos fatos incontáveis vezes ao longo das décadas e é a única testemunha viva do que aconteceu. Certo mesmo é uma declaração que ele deu em uma entrevista:

“Não teve nada de vozes, fantasmas ou demônios. Eu os matei, simples assim”

Em dezembro de 1975 a família Lutz comprou o imóvel por oitenta mil dólares, de onde fugiram dizendo-se aterrorizados após 28 dias. Pois bem, foi apenas muitos anos depois que a verdade veio à tona. O advogado de Ronald DeFeo Jr., William Weber, que queria a todo custo que o seu cliente escapasse da prisão perpétua ao declará-lo mentalmente insano e sob a influência de forças sobrenaturais, convenceu os Lutz a criarem a famosa história da casa assombrada, o que seria bom para todos: para o seu cliente, para ele próprio e para os Lutz, que ganhariam uma boa grana como de fato ocorreu. Conforme o advogado, toda a história foi criada durante um jantar e depois de muitas risadas e garrafas de vinho.


De fato, hoje sabe-se que a compra da casa foi um passo maior do que as pernas para George Lutz, assim ao criar a história e abandonar o imóvel ele abandonou também a hipoteca (sem pagar uma única prestação) e faturou muitas verdinhas, visto que ele não teria possibilidades financeiras de pagar pela casa. Até mesmo o hoje famoso casal Warren (aquele dos filmes Invocação do Mal e Annabelle) ajudou a dar credibilidade à farsa, tendo publicado uma foto de uma suposta aparição na casa durante uma investigação, cuja autenticidade até hoje é questionada.

A suposta aparição na casa de Amityville. Tirem as próprias conclusões

Em tempo, nenhuma das famílias que moraram depois no número 112 da Ocean Avenue em Amityville relataram qualquer fenômeno sobrenatural. E o tal “quarto vermelho” era apenas um pequeno espaço que ficava embaixo da escada principal, que os DeFeo usavam para guardar bugigangas, algo comum em muitas casas mesmo no Brasil.

O meu velho pai estava certíssimo.

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