O Iron Maiden da fase Blaze Bayley

Sem dúvida uma das fases mais complicadas do Maiden foi na década de 1990, quando Bruce Dickinson saiu e foi substituído por Blaze Bayley. Mas foi mesmo tão ruim assim? Passados mais de vinte anos desta mudança, é possível analisar com mais frieza e imparcialidade.


Para muitos fãs do Iron Maiden, simplesmente era inimaginável a banda sem o Bruce para comandar o ataque ao vivo. Mesmo que os dois primeiros álbuns tenham sido com Paul Di`Anno (coisa que talvez muitos não saibam), Bruce tornou-se uma das marcas registradas do grupo, ao lado do monstro Eddie.

Em 1993 ele estava realmente de saco cheio das limitações criativas da banda e das longas turnês mundiais. Queria fazer algo musicalmente diferente e ter mais tempo para curtir os seus outros gostos e projetos, como a aviação e a literatura (sim, ele já publicou alguns livros). A relação com o chefe Steve Harris também não andava boa há algum tempo, e assim ele avisou que após o final da turnê do disco Fear Of The Dark estaria fora do grupo.

Na verdade, as coisas não estavam boas na banda desde muito antes da saída do Bruce. Para muitos, a crise do Maiden começou com a saída do exímio guitarrista e compositor Adrian Smith no final de 1989, o qual não estava a fim de partir para o som mais cru que a banda mostraria nos discos No Prayer For The Dying e Fear Of The Dark. O seu substituto, Janick Gers, que fez parte da primeira formação da banda solo do Bruce antes mesmo dele sair do Maiden, esbanjava carisma (até hoje esbanja), porém fica atrás em técnica e na qualidade das composições se comparado ao mestre Adrian.

Steve Harris admitiu ter sido pego de surpresa com a decisão do Bruce e chegou a pensar até mesmo em parar com a banda, mas enfim decidiu seguir em frente e buscar um vocalista substituto. Um concurso mundial foi feito onde vocalistas do mundo todo mandaram fitas para audição (dizem que o brasileiro André Matos foi um dos finalistas), porém a seleção tinha uma carta marcada: Steve queria o vocalista Blaze Bayley da banda Wolfsbane, que tinha participado da turnê do disco No Prayer For The Dying como banda de abertura.

O anúncio do novo vocalista foi feito em 1994 e todo mundo ficou na fissura para o lançamento do primeiro disco desta formação, o que só foi acontecer em 1995. Lembrem-se que naquela época não havia Internet comercial e muito menos YouTube (que só surgiria 11 anos depois), assim tínhamos que esperar pelo CD para conferirmos a performance do Blaze Bayley. Lembro-me bem, foram meses de ansiedade!

A formação ficou a seguinte:

Blaze Bayley – Vocais
Dave Murray – Guitarra
Janick Gers – Guitarra
Steve Harris – Baixo
Nicko McBrain - Bateria


The X Factor (1995)

Pelos motivos expostos no parágrafo anterior, foi um disco bastante aguardado. Vendo em retrospectiva, pode-se dizer que foi o álbum que inaugurou a fase mais progressiva do Maiden que perdura até o seu mais recentemente lançamento, o The Book Of Souls. Além da mudança na banda, Steve Harris também passava na época por um processo de divórcio e isto com certeza influenciou as composições, que são bem sombrias e até certo ponto depressivas.

Quanto ao disco, apesar da temática mais densa, há algumas pequenas obras-primas aqui que valem o registro, as quais trazem um instrumental competentíssimo. Cito como pontos positivos as seguintes faixas: a épica Sign Of The Cross, Lord Of The Flies, Man On The Edge, Look For The Truth, Judgement Of Heaven e Blood On The World´s Hands. Colocando de lado uma possível implicância com o vocalista e em termos puramente musicais, é um baita disco!

Tenho este CD desde 1995

Quanto ao vocalista Blaze Bayley, sem dúvida trata-se de um barítono muito competente, cujo timbre vocal deu o toque sombrio que as composições exigiam. Porém a primeira audição do disco já mostrava a diferença de estilos dele com o do Bruce, o que poderia complicar nos shows. Mais sobre isto adiante.


Virtual XI (1998)

Depois de um início muito positivo com o The X Factor, no disco seguinte eles derraparam feio. Pegando temas que misturavam futebol (era o ano da copa do mundo da França) com realidade virtual, o Virtual XI para mim é o pior do Maiden: composições estruturalmente fracas, instrumental sem inspiração e refrões repetidos à exaustão. O público também não gostou, tanto que este foi o disco com os piores números de vendas de toda a história da banda.

Apenas duas faixas merecem ser lembradas. A Futureal, que abre o disco e é o auge do Blaze em termos vocais no Maiden, e a The Clansman, baseada no filme Coração Valente do Mel Gibson.


Foi somente recentemente que comprei o CD, apenas para completar a coleção.


Talvez o melhor do CD seja a contracapa interna, que traz a banda juntamente com alguns boleiros tops da época. Da esquerda para a direita, em pé: Stuart Pearce, Faustino Asprilla, Steve Harris, Paul Gascoigne, Blaze Bayley e Ian Wright. Sentados: Nicko McBrain, Dave Murray, Patrick Viera, Janick Gers e Marc Overmars.


Nos shows o bicho pegou

A diferença entre o estilo barítono do Blaze com o tenor do Bruce era marcante e nos shows isto foi um problema. Cantando fora da sua tessitura vocal natural, Blaze sofria para tentar atingir as mesmas notas nas músicas antigas. Vejam na clássica Hallowed Be Thy Name: no início com o timbre mais baixo ele vai muito bem, mas depois fica difícil...


Mas justiça seja feita: a culpa não é somente do Blaze. Faltou à banda (principalmente ao Steve Harris) ter mais sensibilidade quanto à diferença da tessitura vocal do novo vocalista. Bastaria baixar um tom apenas e o problema estaria resolvido (a música começa aos 1:35):


A volta do Bruce

Juntando os problemas nos shows e as baixas vendas do disco Virtual XI, o Iron Maiden começou a andar para trás. Acostumados a lotar estádios mundo afora, tinham agora que contentarem-se em tocar em lugares cada vez menores. O sinal de alerta veio do empresário Rod Smallwood, que foi direto ao ponto com o Steve: ou ele chamava o Bruce de volta, ou a banda definharia.

Diz a lenda que bastaram apenas 15 minutos de conversa entre o Bruce e o Steve para os problemas passados serem esquecidos, possibilitando no início de 1999 a volta triunfal do Bruce ao Maiden, bem como do grande Adrian Smith que estava na sua banda solo. Devido à lealdade mostrada nos anos de vacas magras, Janick Gers foi poupado e desde então a banda conta com três guitarristas.

Mas nem tudo foi ruim, começando pelo bom disco The X Factor. Sem falar que, ao menos, Steve Harris e a banda tentaram mudar: seria bem mais fácil chamar outro tenor para substituir o Bruce, mas eles inovaram, como foi na época da transição do Paul Di´Anno para o próprio Bruce. Blaze Bayley foi muito esforçado e correto, porém o seu maior mérito foi ter segurado o rojão em um momento difícil para o grupo na metade da década de 1990. Se não fosse por ele, talvez não teríamos mais o próprio Iron Maiden hoje em dia.

Comentários

  1. Curti mais o Iron na fase Paul D'ianno, 1980, I am running free, yeah! Abraços.

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    1. Eu já prefiro com o Bruce, mas a fase do Paul tem um charme especial, inegavelmente.

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