Revivendo o clássico Gradiente Expert (Parte 1 – Apresentação e histórico do padrão MSX)

Embora os PCs dominem a cena, não posso deixar de forma alguma de olhar para outros padrões que foram clássicos e marcaram época tais como o MSX, representado aqui pela sua variação nacional Gradiente Expert. Confira a primeira parte da série de postagens sobre este sistema que esteve entre nós durante os anos da Reserva de Mercado, e que até hoje tem uma legião fiel de entusiastas.

EDIT 13/08/2015: adicionadas as especificações técnicas do processador Zilog Z80 e do Expert.





Sobre o padrão MSX

Se hoje em dia o padrão IBM PC domina com folga o mercado de computadores pessoais, nem sempre isto foi assim. O início da década de 1980 marcou uma grande batalha entre vários (e incompatíveis entre si) padrões de sistemas pela supremacia no emergente mercado de computadores pessoais. Lançado em 1977, o Apple II mostrou que havia um grande interesse pelos computadores “para termos em casa” e tinha a maior participação na época – o IBM PC lançado em 1981 então era apenas uma aposta da big blue para este mercado e o Macintosh ainda encontrava-se no lado mais obscuro da mente de Steve Jobs, isto sem mencionarmos outros padrões de sistemas tais como os Commodore, Sinclair e Atari, apenas para citar alguns exemplos.

Com a grande indefinição na peleja dos computadores domésticos, Kazuhiko Nishi, então vice-presidente da Microsoft Japão, propôs a criação de um novo padrão que tinha como objetivo ser simples, barato e, assim como o IBM PC, ser montado com componentes “de prateleira” (disponíveis no mercado) de modo a atrair grandes fabricantes não apenas de computadores, mas também de eletrônicos em geral.

Tendo recebido o sinal verde da Microsoft norte-americana, Nishi partiu para a seleção de componentes. Tomando como base o computador Spectravideo SV-328, ele definiu as especificações básicas do padrão MSX: como processador principal foi utilizado o clássico Zilog Z80 de 8 bits e 3,58 MHz, chip gráfico Texas Instruments TMS9918 com 16 KB de VRAM, chip de áudio General Instrument AY-3-8910, chip controlador de I/O Intel 8255, de 8 a 128 KB de RAM e 32 KB de ROM, a qual trazia incorporado o MSX BASIC (também estava disponível para a plataforma o MSX-DOS).

O Spectravideo SV-328 inspirou o padrão MSX


Lançado em junho de 1983, o padrão MSX teve a adesão imediata de um grande número de empresas, a maioria delas japonesas: Canon, Fujitsu, Hitachi, JVC, Sanyo, Sony, National, Toshiba, Yamaha e Mitsubishi, além da coreana Goldstar (atual LG) e da norte-americana Spectravideo, cujo modelo SV-328 foi o inspirador do padrão como bem vimos. O MSX ainda teve algumas evoluções: MSX2 de 1985, MSX2+ de 1988 e o MSX TurboR de 1990, este com um microprocessador de 16 bits, tendo sido oficialmente descontinuado em 1995.

Como curiosidade, pelas suas boas capacidades gráficas para a época principalmente por contar com um processador gráfico e VRAM dedicados, o MSX também teve uma forte presença no mercado de videogames até ser lentamente suplantado pelos consoles NES da Nintendo e Mark III (Master System) da Sega. Outra curiosidade diz respeito ao seu nome: durante muitos anos acreditou-se que a sigla MSX significava Microsoft Extended, porém Nishi afirmou ainda em 1985 que o nome foi inspirado nos mísseis MX, também conhecidos como Peacekeepers.

Embora o padrão tenha falhado no mercado norte-americano, em vários outros países ele foi muito popular: Japão, Coréia do Sul, Holanda, França, Espanha, Finlândia, a antiga URSS, Chile e Brasil, este último com as suas versões produzidas durante aos anos da Reserva de Mercado.

Sobre o Zilog Z80

A Zilog foi fundada por Federico Faggin, um ex-engenheiro da Intel que trabalhou no projeto do Intel 8080. Ao lado do MOS 6502 e do Motorola 6800, o Z80 é um dos processadores de 8 bits que mais marcaram época. As suas principais características são as seguintes:


  • Barramento externo de 8 bits;
  • Barramento de endereçamento de memória de 16 bits;
  • Frequência de operação de 2,5 MHz (Z80 original), 4 MHz (Z80A), 6 MHz (Z80B) e 8 MHz (Z80H). Há versões modificadas do chip produzidas por outros fabricantes que chegam a até 50 MHz;
  • Tensão de alimentação de 5 V;
  • Litografia de 5 μm ou 5000 nm.

O processador da Zilog possui compatibilidade binária total com o 8080, de modo que é capaz de rodar softwares desenvolvidos para o modelo da Intel sem modificações. Apesar desta compatibilidade o Z80 apresenta várias melhorias em relação ao 8080, tais como um sistema melhorado de interrupções, um conjunto de instruções mais amplo e novos registradores de índice - tanto que forçou a Intel a acelerar o desenvolvimento do seu processador de 16 bits, o qual viria a ser o hoje famoso 8086.

O Z80 foi lançado em julho de 1976 e continua sendo fabricado até hoje, e a sua aplicação vai muito além de computadores: ele também é utilizado em videogames, calculadoras, reprodutores de mídia, instrumentos musicais, sistemas de automação industrial e militares, entre vários outros. O Z80 foi (e ainda é) produzido por uma ampla gama de fabricantes, muito devido ao fato de a Zilog não cobrar royalties.


O Z80A utilizado no Gradiente Expert

O Gradiente Expert

O Expert não foi o primeiro computador MSX fabricado no Brasil (primazia que é do Sharp Hotbit por um mês de diferença), porém foi o que mais fez sucesso de longe. Lançado em dezembro de 1985 pela bagatela de 493 doletas (valor da época), o Expert era um clone de outro MSX, o CF-3000 da National.


Lançado em novembro de 1985, o Sharp Hotbit foi o primeiro MSX do mercado brasileiro


O Expert chegou um mês depois


A frente do Expert lembra um aparelho de som


Expert modelo XP-800


Como todo MSX, o Expert utiliza uma TV como monitor de vídeo e pode ser integrado com impressoras, unidades de fita cassete e drives de disquete de 5,25” e 360 KB, ou de 3,5" e 720 KB. Pelo custo proibitivo dos disquetes na época, as unidades de fita eram as mais utilizadas como dispositivos de armazenamento e o seu alto índice de falhas atormentava os seus utilizadores - ter que redigitar programas inteiros por erros na leitura das fitas cassete era algum comum na época. Bons e duros tempos... :)

A unidade de fita


A profusão de conexões no painel traseiro. O Data Corder é a interface para a unidade de fita cassete (clique para ampliar)


O teclado avulso é um diferencial do Expert


Detalhe do slot para cartuchos


As especificações técnicas do Gradiente Expert são as seguintes:

  • CPU Zilog Z80A rodando a 3,58 MHz;
  • 64 KB de RAM;
  • Chip gráfico Texas Instruments TMS9128 (uma variação do TMS9918) com 16 KB de VRAM;
  • Resolução máxima de 256 X 192 com 16 cores;
  • Chip de áudio General Instrument AY-3-8910A com três vozes;
  • Chip controlador de I/O NEC D8255 (variação do Intel 8255);
  • 32 KB de ROM, sendo 16 KB para o BIOS e 16 KB para o interpretador MSX BASIC;
  • Teclado avulso mecânico de 89 teclas;
  • Suporte a dois joysticks;
  • Slots de expansão para dois cartuchos;
  • Pode utilizar como dispositivo de armazenamento unidades de fita cassete e drives de disquete de 360 KB e 5,25” ou de 720 KB e 3,5".

Na próxima parte desta série dissecarei a anatomia do Gradiente Expert, bem como demonstrarei o seu funcionamento. Aguardem! 


Por fim, gostaria de agradecer aos amigos Evandro M. de Aguiar pela doação do equipamento e Jeferson Mombach de Sousa pelo transporte. Muito obrigado!


Próximo:

Revivendo o clássico Gradiente Expert (Parte 2 – Anatomia e Funcionamento)

Veja também:

Vivendo na época da Reserva de Mercado de Informática
Ressuscitando um antigo 286 (Parte 1 – Apresentação e componentes)
Restaurando uma relíquia da Reserva de Mercado (Parte 1 - Visão geral)
80386: a primeira CPU x86 de 32 bits (Parte 1 – Apresentação e montagem)

Comentários

  1. O Z80 era o coração do Master System. Era também usado como processador secundário no Mega Drive. Muito joguei Alex Kidd in Miracle World, que vinha embutido no Master System II que foi vendido aqui no Brasil.

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    1. É verdade. O Master System II e o Alex Kidd fizeram parte da minha infância: http://www.michaelrigo.com/2014/03/era-de-ouro-dos-consoles-sega-master-system.html

      :)

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    2. Haha, excelente! Você tem um museu aí, Michael.

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    3. E tem muita coisa ainda, o blog terá assunto por um bom tempo! :p
      Sou colecionador de tecnologia vintage há um bom tempo, pena que geralmente enfiam a faca em componentes antigos...

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  2. Tive um desse e lembro que ficava digitando os códigos fontes dos jogos para depois serem compilados em fita cassete, e ai sim rodá-dos. Como demorava para fazer isso, saudades dessa época.

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    1. Exatamente. E quase sempre a maledeta fita dava pau na hora de carregar o programa, o que nos obrigava a digitar tudo novamente!

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  3. A grande vantagem do MSX: melhor desempenho por causa dos processadores separados para os subsistemas, deixando para o principal apenas o que devia ser tarefa dele mesmo. Computadores como o CP400, por exemplo, usavam o mesmo Z80, mas este tendo que processar tudo.

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