Cloud Computing: aprecie com moderação

Fazia algum tempo que eu pretendia escrever algo sobre a tão controversa Cloud Computing (ou em bom português, Computação na Nuvem). Para alguns, é uma verdadeira revolução; para outros, é obra do demônio. De qualquer modo, é algo que mudou e muda as nossas vidas e que veio para ficar, para o bem e para o mal - é uma tendência irreversível e cabe a todos nós aproveitarmos o seu melhor e evitarmos os seus pontos nebulosos.



Computação na nuvem: nem sempre o céu é azul

Antes de iniciar a análise propriamente dita, vou dar uma pincelada aos amigos leitores que não são da área de TI e que talvez não saibam o alcance de tal termo técnico. A grosso modo, cloud computing ou computação na nuvem é uma infraestrutura de servidores interligados pela Internet com o objetivo de oferecer serviços, aplicativos, armazenamento de dados, entre muitos outros recursos, para acesso por qualquer dispositivo conectado à Internet sem a necessidade de instalar programas ou de armazenar dados localmente nestes dispositivos. O termo nuvem vem do fato dos servidores operarem e se comunicarem entre si pela Internet de forma transparente ao utilizador dos serviços oferecidos por eles.

Cito alguns exemplos de serviços on-line que se encaixam no paradigma da computação na nuvem: serviços de armazenamento de dados (tais como o Google Drive e Dropbox, entre outros), de aplicativos (como o Google Docs), de fornecimento de mídia e entretenimento (como o Netflix e o YouTube), de fornecimento de jogos (como o Steam), e mesmo redes sociais modernas como o Facebook.

Nesta modesta análise, vou seguir a mesma linha que faço nas análises sobre os componentes de hardware e software que faço aqui no blog: elencar os pontos positivos, negativos, algumas recomendações e a minha conclusão pessoal sobre o tema. Espero que gostem!

Na minha opinião, os pontos positivos da computação na nuvem são os seguintes:



  • Acesso a aplicativos e serviços complexos a partir de dispositivos relativamente simples como smartphones e tablets;
  • Compartilhamento de dados e informações entre diversos dispositivos. Por exemplo, você pode acessar o seu catálogo de endereços, e-mails e a sua agenda a partir de qualquer aparelho, basta estar conectado à Internet;
  • Não há a necessidade de efetuar uma gestão de versões dos softwares e se preocupar com atualizações, comum em dispositivos tradicionais;
  • Acesso a conteúdo sob demanda. Por exemplo, é possível assistir a um filme no Netflix conforme a sua disponibilidade de horário. É algo que as TVs por assinatura tradicionais não conseguem oferecer de forma plena até os dias de hoje;
  • Possibilidade de obtenção de conteúdo não dependente da disponibilidade de mídias físicas. Ilustrando esta situação, você pode obter no Steam (ou outro serviço similar) um jogo de forma imediata (desconsiderando o tempo de download do jogo, obviamente) sem depender da disponibilidade do título em mídia física;
  • Disponibilidade de novos serviços de conteúdo: se não fosse o conceito da computação na nuvem, é quase certo que você não estaria lendo o presente texto agora pois este blog provavelmente não existiria. Ficou muito mais fácil para "simples mortais" compartilharem conhecimento.

Creio que estes tópicos cobrem as principais vantagens do cloud computing. Podem haver vários desdobramentos, porém cujos princípios se encaixariam em algumas das características descritas acima. Já os pontos nebulosos na minha opinião seriam os seguintes:


  • Sem uma conexão à Internet funcional não há possibilidade de acesso aos seus aplicativos e dados armazenados on-line;
  • A performance e a experiência de utilização dependem fortemente da qualidade da conexão, o que ainda é algo crítico em termos de Brasil;
  • Uma vez armazenados na nuvem, você nunca mais será o único controlador dos seus dados pessoais. Isto traz sérias implicações para a segurança e privacidade dos dados;
  • Maior facilidade de interferência de governos e certos grupos. O maior exemplo disso foi o fechamento do serviço de hospedagem de arquivos Megaupload pelo FBI. Tá certo que havia muita pirataria armazenada neste serviço (o que é muito mais devido ao mau uso do mesmo), mas quem o usava para armazenar dados legítimos ficou na mão. Inclusive há relatos de pessoas que confiavam tanto no serviço que não tinham cópias locais dos dados armazenados nele. Sinistro!
  • No caso dos serviços de mídia, a propriedade das mesmas fica com o mantenedor do serviço. Por exemplo: você pode ver um filme no Netflix, mas ele não será seu. Se um dia o serviço deixar de existir você perderá o acesso ao filme, o que não ocorre com cópias em mídias físicas (como DVDs);
  • Os aplicativos on-line normalmente possuem funções e recursos bastante simplificados se comparados aos aplicativos tradicionais. Exemplificando: o Google Docs pode ter recursos suficientes para a maioria das pessoas, mas nem de longe se compara a suítes tradicionais como o Microsoft Office e o LibreOffice;
  • Leva a uma certa tendência de simplificação dos dispositivos, principalmente no que toca à capacidade de armazenamento. Pela possibilidade de guardar os dados na nuvem, mesmo tablets e smartphones topo de linha raramente contam com mais do que 64 GB de armazenamento, capacidade que os PCs de mais de dez anos atrás já possuíam.

Sem uma conexão de boa qualidade, a experiência de utilização dos serviços on-line fica bastante prejudicada

Uma vez expostos os dois lados, deixo agora as minhas recomendações para uma utilização mais segura e consciente dos serviços on-line:


  • Nunca armazene na nuvem dados cuja confidencialidade seja crítica. Aliás, para tais dados, recomendo que sejam armazenados somente em dispositivos completamente isolados da Internet, como HDs externos;
  • Mantenha sempre os seus dados armazenados localmente, nunca confie cegamente nos serviços de armazenamento de dados on-line. Use-os apenas como uma alternativa para o backup dos arquivos ou informações. Caso haja preocupações quanto a privacidade, siga a dica descrita no tópico anterior;
  • Jamais divulgue dados pessoais seus ou de terceiros em serviços on-line (principalmente nas redes sociais). Não exponha a sua vida desnecessariamente. Caso você tenha filhos, controle o que eles acessam - há muitos bons softwares disponíveis para isto. Prudência nunca é demais: como em tudo que envolve seres humanos, a Internet também está cheia de pessoas mal intencionadas.

Concluindo, é claro que não tenho a pretensão de que este seja um texto definitivo sobre o assunto, ele é mais para suscitar um debate e alertar os leitores de que a computação na nuvem sempre esteve e sempre estará sujeita a "tempestades", apesar de inegavelmente ter muitos pontos positivos que, se bem aproveitados, permitem uma experiência rica e produtiva. Aquele velho slogan das propagandas de bebidas alcoólicas cai como uma luva: aprecie com moderação.

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Comentários

  1. Perfeito o texto, o que ainda me deixa muito cabreiro com relação a nuvem é sua segurança e principalmente sua privacidade, essa tendencia fortemente faz com que ficamos com uma MEGA PULGA atrás da orelha, é muito mais fácil para ser monitorado. Do ponto de vista de infra e desenvolvimento é bem interessante, pois você simplesmente loca um serviço de armazenamento de site por exemplo e faz o deploy da sua aplicação, sem se preocupar com compra de hardware, conexão entre outras coisas. Mas sendo saudosista eu sempre vou querer as coisas offline e em conteúdo de mídia física, é mais seguro eu não dependo de ninguém e principalmente é meu, ninguém vai poder tirar, isso não tem preço. E ainda, não me imagino com um dispositivo burro daqui a uns anos, como era antigamente acessando um servidor para poder programar, prefiro o fato de ter um hardware mediano a ótimo, fazer meus testes e depois poder fazer deploy em um servidor, essa coisa de terminal burro para mim tem que ficar no passado, afinal a informática avançou muito, mas as pessoas esquecem o principal, ela é uma ferramente, isto é meio, não fim.

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    1. É bem isso: segurança e privacidade são os dois calcanhares de Aquiles da computação na nuvem, ainda mais depois do recente imbróglio da espionagem feita pelo governo estadunidense. Quanto aos dispositivos, sem dúvida dispositivos mais simples como smartphones e tablets cumprem o seu papel como consumidores de conteúdo. Mas para produzir conteúdo (e nisso entra também o desenvolvimento de aplicativos) nada substitui o bom e velho PC. Mesmo para um blog simples como esse, não me imagino usando outra ferramenta que não seja um PC (ou no máximo um notebook - neste caso ainda prejudicado pelo tamanho menor da tela). Seria uma tortura chinesa fazer isso a partir de um tablet, por exemplo.

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