Marcas que deixaram saudade (Parte 3 – Chips gráficos: PowerVR e Rendition)

Após um curto e agradável verão, a série Marcas que deixaram saudade retorna com duas fabricantes de chips gráficos lendárias: a PowerVR e a Rendition.







A PowerVR é uma subsidiária especializada no projeto de GPUs da Imagination Technologies, que talvez seja mais conhecida pelo seu antigo nome: VideoLogic. Fundada na Inglaterra em 1985, a empresa possui diversas subsidiárias além da PowerVR em diferentes áreas, tais como tecnologias de transmissão sem fio (Enigma), de chips SoC (IMGWorks) e de CPUs RISC de arquitetura própria (MIPS).

Criada no final dos anos 1990 para competir no mercado de chips 3D principalmente com a 3dfx, a PowerVR é uma empresa sem fábricas que licencia os seus projetos para a fabricação por terceiros. Seu primeiro chip gráfico foi o PowerVR Series1, que foi produzido sob contrato de licenciamento com a NEC e não atingiu grande participação no mercado, tendo sido mais utilizado em PCs OEM como os fabricados pela Compaq.



Porém o PowerVR2 (Series2) com certeza foi um chip muito mais conhecido: também fabricado pela NEC, equipou o console Sega Dreamcast. Em termos de desempenho com relação às suas contrapartes da época quando foi lançado (1998), o PowerVR2 era superior aos chips Riva TNT e Voodoo2. Nada mal!

A placa mãe do Dreamcast. O PowerVR2 é o maior chip no centro


O próximo projeto da companhia, o PowerVR3, surgiu apenas em 2001 e foi produzido por um novo fabricante, a STMicroelectronics, que lhe deu o nome que ficou famoso: Kyro II. Lembro-me bem do impacto que os Kyro tiveram no mercado devido à sua engine de renderização revolucionária, que renderizava apenas os elementos visíveis em cada quadro do jogo. Em outras palavras, apenas o que estava na tela era processado, o que reduzia o uso do chip gráfico e da banda de dados entre o chip e a VRAM. Algo realmente muito à frente do seu tempo.

Placa Hercules Prophet 4500 AGP com o Kyro II


Inicialmente o Kyro II foi um grande sucesso e competia em igualdade com as GeForce2 e as primeiras Radeon em desempenho, porém custando bem menos. No entanto, em apenas um aspecto os chips da PowerVR ficavam em desvantagem: os mesmos não tinham uma unidade T&L (transform and lighting) e delegavam este processamento à CPU do PC, desta forma em jogos que utilizavam esta tecnologia os chips Kyro II ficavam em desvantagem em relação aos produtos da Nvidia e ATI.

O próximo passo seria o PowerVR4 que incorporaria uma unidade T&L, porém a STMicroelectronics (que lançaria o produto com o nome Kyro III) decidiu sair do mercado de processadores gráficos e o projeto acabou cancelado antes de ser lançado comercialmente, fazendo com que a própria PowerVR também desistisse deste mercado e mudasse o seu foco para dispositivos móveis e chips SoC, onde faz muito sucesso até os dias atuais.





Surgida na Califórnia em 1993, a Rendition esquentou a disputa no mercado de chips 3D no final da década de 1990 com os produtos Vérité e duas APIs próprias: a Speedy3D para MS-DOS e a Rredline para Windows. 

O primeiro chip da empresa foi o Vérité V1000, o qual foi revolucionário em muitos aspectos. Primeiramente era um chip com arquitetura RISC que trazia unidades programáveis (muitos anos antes das GeForce3 e Radeon 8500!) e uma engine de geração de triângulos incorporada, trabalho que os demais chips gráficos da época deixavam para o processador principal do PC. Também é digno de menção o uso de técnicas de DMA aplicada no barramento PCI, fazendo com que a transferência de dados entre a placa e o resto do sistema fosse bem mais eficiente que o método FIFO (First In First Out) tipicamente utilizado pelo barramento PCI, por não depender do processador principal.

As Vérité V1000 chegaram com os dois pés no peito da concorrência, sendo muito mais rápidas do que as S3 Virge, ATI Rage 3D e Matrox Millenium. A sua a única concorrente à altura era a 3dfx Voodoo, porém as V1000 tinham a vantagem de também serem placas 2D (ao contrário da Voodoo) e eram mais baratas, sem falar que jogos compatíveis com a API Speedy3D tinham um ganho extra de performance (principalmente pela utilização massiva de transferências DMA) e ficavam mais bonitos graficamente.

O declínio da V1000 coincidiu com a ascensão de duas APIs hoje famosas: Direct3D e OpenGL. Conforme mais e mais jogos aderiam a uma das duas APIs verificou-se que a V1000 não oferecia uma performance satisfatória, além de problemas de compatibilidade com muitos títulos. Simplesmente o chip não havia sido projetado com estas APIs em vista.

Placa Creative Rendition Vérité V1000 PCI


Em 1998 chegaram os chips Vérité V2100 e V2200, que diferenciam entre si apenas pela frequência de operação: 40 MHz para o 2100 e 60 MHz para o 2200. Ambos os chips eram uma versão revisada do V1000 com um melhor suporte ao Direct3D e OpenGL, além de algumas otimizações de desempenho, como a capacidade de gerar um pixel em apenas um ciclo de processamento. Houve também melhorias na parte 2D, como a inclusão de suporte à decodificação de DVDs.

Os V2100 e V2200, sem dúvida, eram bons produtos, porém chegaram ao mercado em um momento ingrato: no mesmo ano do lançamento dos chips 3dfx Voodoo2, Nvidia Riva TNT e ATI Rage Pro, que eclipsaram completamente os produtos da Rendition principalmente em desempenho.

Rendition Vérité V2200 AGP


Correndo atrás do prejuízo e já com problemas financeiros, a Rendition chegou a anunciar para o início de 1999 o lançamento do chip Vérité V3300, cujas principais novidades eram um desempenho aprimorado, que sustentaria a respeitável marca para a época de três milhões de triângulos por segundo e interface com a VRAM de 128 bits. Porém antes do lançamento a Rendition foi comprada pela Micron Technology e encerrou a sua participação na história da aceleração 3D para os PCs.

A Micron tinha planos de entrar no mercado de chipsets para placas mãe e pretendia utilizar a tecnologia da Rendition para integrar capacidades 3D nos mesmos, o que de fato nunca aconteceu - até havia um projeto de chipset chamado de Vérité V4400 que jamais foi lançado. A empresa mudou de planos após projetar um único chipset para a primeira geração dos Athlon cujo nome código era “Mamba”, o qual passou completamente despercebido pelo mercado.

Um forte abraço e até a próxima parte!

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Comentários

  1. Excelente artigo! Das placas de vídeo eu só conhecia a Kyro II e a GPU do Dreamcast. Já a fabricante Rendition eu conhecia só de nome!

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    1. Na época eu quis muito comprar uma Diamond Stealth II S220 que tinha o Vérité V2200, mas era praticamente impossível achá-las no Paraguai (morava perto). Acabei economizando mais um pouco e no ano seguinte comprei uma TNT2.

      Tenho muita vontade de ter uma Rendition e uma Kyro II, o problema é que hoje em dia são moscas brancas de olhos azuis, bem difíceis de achar.

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    2. Ter uma Voodoo pra jogar os games em glide deve ser massa também. Na época nem placa 3D Trident vagabunda eu tinha hehehehe

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    3. Opa que essa eu tenho! :-)
      http://www.michaelrigo.com/2014/03/nos-anos-90-um-pc-de-jogos-era-assim.html

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